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sábado, 25 de novembro de 2017

Vítimas da Moda

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“Você quer ficar bonita ou confortável”?

Frequentemente, ousaria dizer até diariamente, nos vemos nesta encruzilhada. Pois aparentemente, não podemos ser os dois ao mesmo tempo, afinal, não existe beleza sem sacrifício! 

Moda bonita mesmo é aquela que aperta, machuca, faz bolha... saltos vertiginosos, sutiãs dilacerantes, vestidos de tirar o fôlego (não no bom sentido, infelizmente) e eu nem vou entrar no mérito dos tratamentos estéticos duvidosos, cirurgias plásticas desnecessárias, depilações mirabolantes, dietas malucas e químicos capilares perigosíssimos. Entre elegância e bom senso, escolhemos elegância, obviamente!

Não, pera! 
Tem algo de muito errado aqui!

Todas nós, em algum momento, já fizemos ou faremos alguma loucura, algum sacrifício para “estar na moda”. Mas por que insistimos tanto em maltratar nosso templo? Não faz sentido submetermos nosso corpo a tantas torturas em nome da moda e beleza. Será que as marcas que essas peças deixam em nós valem mesmo a pena? Será que a aparência vale tudo isso? 

Somos iludidas a pensar que nunca seremos o suficiente! Sempre precisamos estar mais magras, mais altas, mais maquiadas, mais perfeitas, vestindo aquele modelito que acabou de chegar na loja e que é o “must have” do momento, tudo isso montada num salto 15, preferencialmente agulha! Só esqueceram de nos contar que perfeição não existe! Ou será que esta é mais uma tática do jogo? Quanto mais infeliz e insegura a gente estiver, mais a gente consome e mais indústria lucra. Touché! 

A expressão "vítimas da moda" nunca fez tanto sentido.


Ensaio Fotográfico "Impressions" de Justin Bartels
Bem, mas esse comportamento não é de hoje, pelo contrário, a relação da moda com sacrifício feminino é de longa data, então vamos voltar um pouquinho na história. 

Você já deve ter ouvido falar em espartilho né? Essa peça da vestimenta feminina foi bem famosinha principalmente entre os séculos XVI a XIX. Sua principal função era limitar a liberdade feminina, simples assim. Além do obvio, deixar a cinturinha fina, o espartilho dificultava a alimentação, afinal é impossível comer com algo apertando seu estômago e “quem não come não engorda”, limitava a locomoção, exaltando a postura e as curvas femininas em um andar lento e elegante, prejudicava a respiração, fazendo com que as mulheres respirassem mais lentamente e assim, prejudicando também a oxigenação do cérebro, mas na época mulher era uma figura meramente decorativa, então, ela causaria menos problemas se tivesse dificuldade de raciocinar (!!!!!). A paranoia com o espartilho era tanta, que algumas mulheres chegavam a quebrar costelas para ficarem mais elegantes dentro da peça. Muitas inclusive acabaram morrendo com complicações internas em função desse procedimento, além de perfurações na região do ventre, devido a própria estrutura pontiaguda de alguns modelos de espartilho.


Espartilhos do Século XVIII (o do centro é infantil). Fonte: Kyoto Costume Institute
Espartilho do Século XIX.
Mas o espartilho sozinho não fazia look algum! Para completar o visual, vinham os farthingales, panniers, crinolinas, crinolettes, bustles, nomes diferentes para modelos diferentes, usados em épocas diferentes, mas que tinham a mesma função: Dar volume às saias! Consistiam em estruturas volumosas usadas por baixo das saias e que eram verdadeiras obras de engenharia! Não é difícil de imaginar a dificuldade feminina em passar por portas, entrar em carruagens e se locomover em meio a outras pessoas né? E assim como os espartilhos, elas também foram responsáveis por acidentes, como incendiar a saia ao passar perto de velas, prender em máquinas e objetos, além disso, se a mulher não se sentasse corretamente a estrutura poderia de deslocar e causar ferimentos no corpo e rosto. 


Crinolina, Século XIX.

A arte de sentar usando uma crinolina do Século XIX. Fonte: Moda Histórica


 “Mas para que tanto volume?” Você deve estar se perguntando. Bem, psicologicamente falando, quadris largos simbolizam fertilidade e ser fértil era a principal função da mulher em uma época de dominação masculina. Além disso, o tamanho da vestimenta era um indicativo de riqueza, quanto maior, mais rica seria a dama, afinal não eram todas que poderiam bancar volumes extravagantes de tecidos e nem se dar ao luxo de ter limitações em suas atividades diárias. 


Pannier, Século XVII.

Eu não posso deixar de citar aqui também algo, que na minha opinião, foi uma das maiores atrocidades da moda em nome de padrões estéticos, os pés de lótus. Prática típica da cultura chinesa, consistia em reduzir o tamanho dos pés das mulheres, enquanto ainda meninas, chegando no máximo a absurdos 10cm (!!!). Para isso, a partir dos 3 anos de idade, os dedos das meninas eram fraturados, dobrados em direção à sola do pé e enfaixados para que cicatrizassem naquela posição. Pés pequenos eram símbolo de sensualidade e atraíam pretendentes para casamento, então, as moças que ñ tinham seus pés pequenininhos geralmente ficavam solteiras e você pode até imaginar a desgraça que era ser solteira em uma sociedade submissa aos homens, né? Essa prática começou a ser banida somente em meados do século XX, então ainda hoje é possível encontrar senhorinhas com os pés deformados. As imagens são bem impactantes.    


A tradição chinesa dos Pés de Lótus
É, parece que conforto nunca esteve no dicionário feminino, mas quero chamar a atenção para um padrão que se repete em todos os exemplos que citei: 


“Limitar a liberdade feminina”!

Roupa desconfortável limita! Sapato apertado limita! Por que será que ainda hoje, nós mulheres do século XXI, ainda trocamos nossa liberdade por aparência e vaidade tortuosa? E que “curioso” o guarda-roupas e os hábitos masculinos serem exatamente o oposto disso né? 

Um minuto de silêncio para você refletir sobre isso. 
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Por que nós, mulheres modernas e independentes ainda precisamos de roupas apertadas e desconfortáveis para elevar nossa autoestima, impressionar, atrair e seduzir, hein? 


Ensaio Fotográfico "Impressions" de Justin Bartels
Nós precisamos urgentemente entender que nosso corpo é nossa casa, é o templo da nossa alma, é um santuário sagrado e precisa ser respeitado, independente da sua forma, tamanho ou características! Respeitado tanto em termos de liberdade emocional, como saúde física. Se você fizer uma rápida pesquisa no Google, encontrará uma lista enorme de artigos escritos por médicos e pessoas ligadas à área da saúde explicando os malefícios de usar roupas e calçados muito apertados. Vou deixar aqui uma listinha:
Dermatites e alergias, vergões na pele, problemas de circulação, celulite, compressão de nervos, dores lombares, problemas digestivos, tonturas, pressão intraocular e glaucoma, alergias vaginais, artrose, joanetes, calos, entre (muitas) outras. 

Mas eu não estou te proibindo ou te recriminando por usar roupas apertadas não, viu? Meu objetivo era somente te fazer refletir sobre algo que fomos ensinadas a fazer sem pensar. Eu quis abrir os seus olhos para um mundo novo, onde você pode sim, se sentir linda e confortável ao mesmo tempo! Esta é uma nova e sincera forma de se amar e de curtir a moda que é tão linda e tão cheia de possibilidades!

A moda deve nos servir como ferramenta de libertação e não como uma arma de aprisionamento! Pense nisso ;)



E se você gostou desse texto, não deixe de dar uma olhadinha aqui também e aprender quais são os verdadeiros erros fashion

Espero que amanhã você possa acordar se sentido uma mulher livre... Permita-se ser livre.

Beijos <3

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